“Você quer se ver livre do pecado que o domina?”


Amy Elizabeth Brown

O diagnóstico bíblico do pecado que domina uma vida  
Um amigo contou-me sobre uma mulher cujas conversas sempre giravam em torno de suas dores, problemas de saúde, remédios e tratamentos. Sempre que alguém procurava mudar de assunto, ela conseguia, de maneira habilidosa, voltar o foco para seus problemas de saúde. Ela gostava de falar sobre suas doenças, sua dificuldade para dormir e sobre as queixas relacionadas às consultas médicas recentes. Isso era bastante irritante para meu amigo, com quem ela conversava. Ele disse que ela era uma mulher que “sentia prazer em estar doente”.

O Evangelho de João relata a conversa de Jesus com um homem que, assim como aquela mulher, estava doente há muito tempo. Antes de curar aquele homem, Jesus lhe fez uma pergunta estranha: “Você quer ser curado?” (Jo 5.6). À primeira vista, a resposta parece óbvia. Por que alguém não gostaria de ser curado? No entanto, nem todos aqueles que sofrem desejam realmente mudar. Assim como alguém pode se apegar à doença, alguns podem se apegar a um pecado.

No aconselhamento bíblico, há momentos em que o conselheiro precisa parar por um instante e, com toda franqueza, perguntar à pessoa que o procurou se ela ama a Deus mais do que aos seus próprios pecados. As três perguntas a seguir podem servir como ferramentas para ajudar o aconselhado se deseja, de fato, mudar.

Pergunta 1: Você ama a Deus mais do que aos seus próprios pecados? 
Todo pecado que domina uma vida é, na verdade, uma questão relacionada à adoração. Em Mateus 6.24, Jesus ensinou que ninguém pode servir a dois senhores. Ou amamos a um e odiamos o outro, ou não amamos a nenhum dos dois. Não existe meio-termo. Por isso, Jesus nos exorta até mesmo a amarmos menos as pessoas mais próximas de nós, em comparação com o amor que devemos a Ele (Lc 14.26). A questão central não é uma hostilidade, mas sim a supremacia de Cristo. Cristo deve ser amado acima de tudo, inclusive acima do próprio pecado.

Os profetas enfatizam essa verdade. Em Isaías 44.6–8, Deus declara que não existe outro deus além dEle. Em Isaías 42.8, Ele afirma claramente que não compartilhará Sua glória com ninguém e com nada. Quando alguém decide pecar, coloca seus desejos acima do amor por Deus. Com o tempo, o pecado passa a dominar e escravizar essa pessoa, tomando cada vez mais o lugar de Deus em seu coração.

A verdadeira mudança só pode começar quando uma pessoa chega à seguinte convicção: “Eu amo a Deus mais do que desejo cometer esse pecado”.

Pergunta 2: Você está disposto a lidar de maneira radical com os seus pecados? 
Não basta simplesmente detestar o pecado. As Escrituras exigem que o combatamos ativamente. Em 2Coríntios 5.9, Paulo fala em nos esforçarmos para sermos agradáveis a Deus. Não se trata de uma atitude passiva. É algo intencional, contínuo e sistemático. Da mesma forma, em 1Coríntios 10.31, Paulo nos diz que, seja o que for que façamos, devemos fazê-lo para a glória de Deus. Toda a nossa vida deve ser dedicada à glória de Deus, e somente de Deus. Quando persistimos no pecado, estamos, na verdade, glorificando o pecado e não Deus. Isso exige uma atitude decisiva de nossa parte.

Em Mateus 18.7–9, Jesus usa palavras fortes para enfatizar que, se algo nos leva a pecar, devemos eliminá-lo imediatamente. O foco desse texto não está na automutilação, mas, sim, em ilustrar a urgência da situação. O pecado precisa ser combatido de forma decisiva, pois as consequências são eternas. Como nosso objetivo é agradar a Deus, devemos eliminar tudo aquilo que pode desagradá-lo. Quem se recusa a tomar as medidas necessárias para eliminar o pecado ainda não está pronto para abandoná-lo. A pergunta que deve ser feita é: “Estou disposto a fazer tudo o que for necessário para demonstrar obediência a Deus?”

Pergunta 3: Você está preparado para perseverar? 
Mesmo quando o coração está alinhado corretamente e as primeiras medidas são tomadas, a mudança não acontece da noite para o dia. As Escrituras deixam isso bem claro: a perseverança é essencial. Em Gálatas 6.8, 9, Paulo adverte os crentes para que não se cansem de fazer o bem. Haverá uma colheita, mas ela acontecerá no devido tempo, e não imediatamente.

Para que a perseverança seja possível, ela não pode depender exclusivamente da força de vontade humana. Deus atua nos crentes “segundo a Sua boa vontade” (Fp 2.13), tanto no que diz respeito querer mudar quanto às ações que eles realizam. Ele nos capacita a perseverar, garantindo que a boa obra que Ele começou em cada um de nós seja concluída (Fp 1.6). No entanto, somos repetidamente exortados a perseverar, a não desistir (Rm 12.12; Ef 6.18). Isso requer esforço realizado com o poder do Espírito Santo; devemos, portanto, fugir do pecado e nos dedicar à prática da santidade (1Tm 6.11).

Até que esteja disposta a dizer “Vou perseverar na luta contra esse pecado, pela graça de Deus, mesmo quando for difícil”, uma pessoa ainda não está pronta para mudar.

Conclusão: Uma pergunta honesta 
Para quem luta contra um pecado que domina sua vida, a pergunta continua a ser: “Você deseja se ver livre desse pecado?” Não para evitar as consequências ou sentir alívio, mas para experimentar uma verdadeira transformação.

Até que o aconselhado consiga responder “sim” a essa pergunta, nenhum progresso significativo será possível. No entanto, assim que ele conseguir fazê-lo, mesmo que de maneira imperfeita, surgirá uma verdadeira esperança de mudança. Essa esperança tem sua raiz naquele que não se limita a perguntar se queremos mudar. Cristo, com graça e amor, concede-nos a força e o poder necessários para mudar.

Atividade prática: Você está pronto para mudar? 
Reserve algum tempo para refletir, em espírito de oração, sobre as seguintes perguntas e responda a elas com honestidade diante do Senhor. 

  1. Amor por Deus 
  • O que é que esse pecado prometeu falsamente que lhe daria?
  • Em quais situações você vê que sua lealdade está dividida entre o pecado e Deus?
  • Na prática, durante sua semana, o que mostra que você deseja a Deus mais do que deseja esse pecado?
  1. Ação Radical 
  • Quais são os passos específicos que você está evitando, e que são necessários para obedecer a Deus?
  • O que precisa ser confessado ou eliminado?
  • Você busca agradar a Deus em todas as áreas da sua vida (2Co 5.9)?
  1. Perseverança 
  • Em quais momentos você sente vontade de desistir?
  • Na prática, durante esta próxima semana, o que você fará para mostrar sua a fidelidade a Deus?
  • Durante a semana, como você pode buscar ativamente a alegria em Deus e não no pecado, (Ne 8.10)?

Amy Elizabeth Brown obteve seu mestrado em Teologia pelo Southern Baptist Theological Seminary. Atualmente, cursa o doutorado na mesma área. Ela trabalha no departamento de aconselhamento da Mayflower Church, em Kingston, Massachusetts.


Original: Do You Want to Be Set Free from Sin?
Artigo publicado originalmente em Association of Certified Biblical Counselors
Tradução e adaptação para o português por Conexão Conselho Bíblico com permissão.