O caminho do Evangelho para abandonar o ressentimento

Shannon Kay McCoy


Todos os domingos, Maria sentava-se na última fila, com a Bíblia em mãos, e participava do louvor em voz baixa. Por fora, parecia fiel e amigável. Por dentro, porém, carregava consigo uma lista interminável das falhas do marido. Anos antes, ele a havia ferido com palavras duras e promessas quebradas. Embora eles tivessem se desculpado e continuado a vida juntos publicamente, ela guardava consigo aquelas ofensas bem vivas.

Cada desentendimento reativava a mágoa. Ela repassava mentalmente o que ele havia dito, comparava o que ela merecia, a seu ver, com aquilo que havia recebido e, em silêncio, prometia nunca mais se mostrar vulnerável. Ela diria ter perdoado o marido, mas seu envolvimento cauteloso e a constante repetição das ofensas contavam uma história diferente. Quando seu conselheiro bíblico perguntou: “Como você lida com a sua mágoa?”, ela percebeu que sua resposta sincera seria: “Eu a guardo e chamo de justiça”.

Muitos de nós podem se identificar com isso. Repassamos conversas, remoemos erros e vivemos com uma ira persistente voltada contra aqueles que nos feriram. Precisamos de um caminho moldado pelo Evangelho que identifique o pecado de acordo com o que ele é, e se recuse a deixá-lo governar nossa vida.

Dando nome ao ressentimento e aos perigos que ele traz
A Bíblia descreve o ressentimento com palavras como amargura, ira, indignação, calúnia e malícia (Ef 4.31). O ressentimento é mais do que a dor inicial de ser magoado. É o hábito arraigado de reviver uma ofensa e guardar amargura. Por sua vez, a amargura nunca permanece privada. Hebreus 12.15 adverte que uma “raiz de amargura” pode contaminar muitos, afetando relacionamentos, a igrejas e a família. É por isso que Paulo ordena aos crentes que se afastem da amargura, da ira, da indignação e da malícia (Ef 4.31).

Deus não é indiferente à dor de quem foi ofendido. Os Salmos estão repletos de clamores sinceros a respeito de traição e injustiça (cf. Sl 55.12-14), e eles nos convidam a derramar nosso coração diante de Deus (Sl 62.8). Contudo, quando o ressentimento permanece sem ser tratado, ele começa a moldar nossa maneira ver os outros e até mesmo de ver a Deus.

Revelando o coração do ressentimento
O ressentimento, muitas vezes, parece estar relacionado somente às ações da outra pessoa. As Escrituras nos ajudam a enxergar o que está acontecendo em nosso próprio coração.

Em primeiro lugar, o ressentimento revela um desejo de agir como juiz e júri: juntamos as provas e proferimos veredictos. No entanto, Deus diz: “A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei” (Rm 12.19). Manter o ressentimento é uma recusa em confiar a justiça a Deus.

Em segundo lugar, o ressentimento expõe a facilidade com que nos esquecemos da nossa própria necessidade de misericórdia. Na parábola do servo incompassivo, contada por Jesus (Mt 18.21-35), um homem que teve sua dívida enorme perdoada recusou-se a perdoar uma de muito menor valor. Quando nos apegamos ao ressentimento, perdemos de vista a misericórdia que nós mesmos recebemos de Deus.

Em terceiro lugar, o ressentimento pode se tornar parte da nossa identidade. Passamos a nos definir principalmente como vítimas, pela forma como fomos feridos. O evangelho redireciona nosso foco: “Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando uns aos outros, como também Deus, em Cristo, perdoou vocês” (Ef 4.32). Em Cristo, sua identidade principal não é a de uma vítima ferida, mas a de um filho perdoado de Deus.

 Trilhando o caminho do Evangelho para abandonar o ressentimento

Traga seu ressentimento à luz.
Ore sinceramente: “Senhor, eu guardei essa ofensa. Repassei-a repetidamente e julguei essa pessoa em meu coração”. Em 1João 1.9 somos lembrados de que Deus perdoa e purifica aqueles que confessam seus pecados. A confissão não justifica o mal que lhe foi feito; ela aborda o mal que cresce dentro de você.

Descanse na misericórdia que você recebeu.
Dedique um tempo a refletir sobre passagens como Efésios 2.1-7 e Colossenses 2.13, 14. Lembre-se de que Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores (Rm 5.8). À medida que a grandeza do perdão de Deus se torna mais preciosa, o ressentimento começa a perder força.

Entregue o caso a Deus.
Talvez você precise orar repetidamente, quando as lembranças voltarem: “O Senhor vê isso com mais clareza do que eu. Entrego essa pessoa e essa ofensa em Suas mão”. Romanos 12.17-21 exorta os crentes a não retribuírem o mal com o mal, mas a vencerem o mal com o bem. Você não vai negar o mal, mas se recusar a ser consumido por ele.

Pratique o perdão.
O perdão bíblico é uma promessa feita a Deus. Significa recusar-se a usar a ofensa contra a pessoa, espalhá-la para outros ou remoê-la continuamente para alimentar a amargura. Quando as lembranças voltarem, lembre-se do perdão que você concedeu e peça a Deus graça para continuar a vivê-lo.

Busque a paz com sabedoria.
Romanos 12.18 diz: “Se possível, no que depender de vocês, vivam em paz com todas as pessoas”. Às vezes, isso envolve buscar a reconciliação. Outras vezes, especialmente quando há pecado ou abuso contínuo, pode exigir limites sábios. O perdão nem sempre elimina as consequências para o ofensor, mas liberta você do contínuo ressentimento em seu coração.

Quando a graça vence o ressentimento
Vencer o ressentimento não é algo rápido. É um processo guiado pela graça, que muitas vezes acontece lentamente, com contratempos e novas oportunidades para confiar no Senhor. Contudo, Deus não ordena nada que Ele não esteja disposto a ajudá-lo para que você obedeça. O mesmo Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em você (Rm 8.11). Ele é capaz de amolecer seu coração endurecido, silenciar o que se agitou por anos e ensiná-lo a seguir um caminho diferente.

Você pode sentir que o ressentimento se tornou parte de quem você é. Em Cristo, isso não é verdade. Sua verdadeira identidade é “filho(a) amado(a) e perdoado(a) de Deus”. Ao receber o Seu perdão novamente, confiar a justiça a Ele e, pela fé, escolher perdoar, a Sua graça poderá fazer com que abandone gradualmente o ressentimento. O Senhor, que tem sido tão paciente com você, caminhará pacientemente ao seu lado enquanto você aprende a deixar para trás o ressentimento.

Perguntas para reflexão

  1. Que ofensa, mágoa ou decepção eu me pego revivendo com mais frequência, e como posso estar alimentando ressentimento em vez de entregar essa situação a Deus?
  2. De que forma lembrar a profundidade do perdão de Deus para comigo muda minha maneira de ver a pessoa que pecou contra mim?
  3. Como seria, na prática, eu entrar essa situação a Deus hoje e confiar em Sua justiça, em vez de continuar a julgá-la em minha mente?

Shannon Kay McCoy é conselheira bíblica em sua igreja no sul da Califórnia. Ela possui mestrado em Aconselhamento Bíblico por The Master’s University em Santa Clarita, Califórnia, e é certificada pela ACBC. Ela atua como palestrante em retiros e conferências. É autora do livro Sou Escravo da Comida (Editora Peregrino) e coautora de Mulheres Aconselhando Mulheres (Nutra Publicações) Escreve também para a Biblical Counseling Coalition (BCC) e o Institute for Biblical Counseling and Discipleship (IBCD).


Original do artigo: A Gospel Path Out of Resentment
Artigo publicado pela Biblical Counseling Coalition
Traduzido e adaptado para o português com permissão.