Psicologia e Bíblia: diferentes campos de atuação? – Parte 2

Como cristãos, afirmamos crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, nossa “regra de fé e conduta”. Ao nosso redor, porém, crescem as vozes que nos dizem que os problemas profundos da alma e os problemas mais complexos do comportamento humano precisam de “algo mais” para serem entendidos e curados. Bíblia e psicologia excluem-se ou se unem como aliadas no aconselhamento? A questão é atual e ampla. Neste e nos demais posts da série, levantamos as perguntas mais frequentes e reunimos citações extraídas de artigos de David Powlison e Edward Welch que nos levam rumo às respostas. Encorajamos a leitura completa dos artigos, que podem ser encontrados nos volumes de 1 a 8 de Coletâneas de Aconselhamento Bíblico (CAB), revista publicada pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida com conteúdo de Journal of Biblical Counseling, publicado pela Christian Counseling and Educational Foundation.

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•• Psicólogos e conselheiro bíblicos atuam em campos essencialmente afins ou distintos?

Edward Welch. Conversa entre vizinhos: um diálogo entre a psicologia secular e o aconselhamento bíblico – CAB  vol. 3

Welch preocupa-se com expor uma afinidade: a natureza religiosa do conhecimento tanto dos profissionais psicólogos quanto dos conselheiros bíblico.

Embora a missão educacional da psicologia continue a ser o preparo de profissionais da ciência, o produto dos programas de formação de psicólogos tem mais a ver, de modo geral, com clérigos. Por exemplo, todos os profissionais psicólogos ministram uma cosmovisão e um conjunto de crenças fundamentais sobre a natureza humana. A suas teorias estão repletas de pressuposições sobre quem somos, por que fazemos o que fazemos e para onde estamos indo. Este é o campo de atuação dos clérigos. Talvez uma descrição mais adequada para os psicólogos clínicos pudesse ser “clérigos seculares que se apresentam como profissionais da ciência”.

Welch prossegue:

A psicologia, especialmente no que diz respeito às teorias da personalidade e aos modelos terapêuticos, simplesmente não é científica […] e quando dizemos que os problemas emocionais são causados por ansiedade gerada pelo complexo de Édipo, esta não é uma declaração científica. Não pode ser refutada. Os que acreditam nesta afirmação encontram confirmação em qualquer pessoa com um problema emocional e os céticos nunca podem refutá-la. Assim é a natureza das teorias psicológicas acerca do homem. Para ser justo, esta também é a natureza da visão cristã do homem.

As cosmovisões da psicoterapia não são verificáveis. Antes de você atender um cliente, você tem teorias: teorias sobre o que é normal e anormal, teorias sobre motivação, teorias sobre o conhecimento, teorias sobre o certo e o errado e, também, teorias sobre Deus. Estas pressuposições não resultaram de uma investigação profunda. Vieram por influência da cultura, família, pano de fundo religioso, professores, programas de pós-graduação e muitos outros fatores. Você foi doutrinado em uma série de pressuposições que não são empiricamente verificáveis. Você as aceita pela fé.

Pegue qualquer texto de teoria da personalidade ou leia qualquer literatura de crédito que lide com a pergunta “Quem é a pessoa?”. Você encontrará dúzias de teorias que competem entre si. Por quê? Porque a ciência tem limitações. Ela não pode sentenciar em questões da personalidade. Para estas questões, somos forçados a nos voltar para as pressuposições – aquele mundo obscuro, embora familiar, onde gastamos a maior parte das nossas vidas.

Somos bons? Somos perversos? Somos guiados pela libido? Somos guiados pelos nossos pensamentos? Temos uma alma dada por Deus? A lista de perguntas e de pressuposições que as respondem não tem fim. Atualmente, as teorias cognitivas estão em seu momento de glória; mas a história da psicologia, embora breve, indica que elas não durarão por muito tempo. E mesmo as teorias cognitivas não têm, provavelmente, o apoio da totalidade dos terapeutas. “Ecletismo” é a regra do dia. Todos temos nossas próprias pressuposições idiossincráticas.

Embora esteja implícito que as interpretações dos modelos psicológicos são consideradas cientificamente corretas, enquanto que as da teologia são consideradas especulativas, as decisões tomadas na psicoterapia são essencialmente religiosas.

David Powlison. Afirmações e negações: uma proposta de definição do aconselhamento bíblico – CAB  vol. 4

Powlison procura definir a fé e a prática cristãs de maneira mais precisa por meio de “afirmações e negações” em um momento quando teorias alheias ao ensino bíblico moldam o pensamento e a prática do aconselhamento não só no mundo secular, mas também dentro da Igreja.

O campo do aconselhamento “cristão” tem usado de modo significativo o conteúdo da psicologia secular como se as Escrituras não tivessem muito a dizer além daquilo que costuma ser entendido como a área espiritual e moral. No entanto, à medida que aprendemos a olhar para a vida e para nós mesmos com os olhos de Deus, torna-se cada vez mais claro que as Escrituras dizem respeito ao aconselhamento: as categorias diagnósticas, as explicações para os comportamentos e as emoções, a interpretação dos sofrimentos e influências externas, as diretrizes para alcançarmos soluções tangíveis e viáveis, o caráter do conselheiro, os alvos do processo de aconselhamento, a configuração das estruturas profissionais para a prática do aconselhamento, a crítica aos modelos competidores. Todas essas são questões sobre as quais Deus fala direta, específica e frequentemente. Ele nos chama a ouvir com atenção, a pensar com empenho e de modo adequado, e a nos engajarmos em um trabalho de valor para desenvolver nossa teologia prática do ministério pessoal. […] A menos que Deus minta, temos os meios suficientes para desenvolver um aconselhamento bíblico de modo sistemático, assim como temos os meios para exercer os ministérios de pregação, ensino, adoração, misericórdia e missões.

A Bíblia é um manual para o diagnóstico e a cura da condição humana, para o amor digno de confiança, o conhecimento de uns pelos outros, o crescente autoconhecimento, a atribuição de sentido às circunstâncias da vida, o processo de relacionamento interpessoal e as mudanças pessoais específicas. Ela trata de como podemos compreender bem ou mal a vida, como nos comportamos ou deixamos de nos comportar. A Bíblia fala sobre o que acreditamos, desejamos, tememos, confiamos e valorizamos. Ela trata de como agimos, falamos e sentimos, dos nossos relacionamentos com outras pessoas e com Deus. Desse ponto de vista, a dinâmica e o assunto das Escrituras constituem reconhecidamente a atividade que chamamos de “aconselhamento”.

Powlison aponta para o fato de que a maior parte, se não a totalidade, daqueles que formularam as teorias da psicologia o fizeram sem levar em conta o Deus verdadeiros. O seu trabalho de observação é cuidadoso, mas seu olhar é distorcido e suas formulações são resultado de uma cegueira às realidades cristãs sobre a essência e cura da alma e do comportamento.

Do ponto de vista de Deus, até mesmo as tentativas tolas de afirmar uma objetividade “médica” ou “científica” alheia a Deus contam como atos abertamente religiosos. A tentativa de explicar e curar as almas, e ao mesmo tempo dizer em seu coração “Não há Deus”, é detestavelmente religiosa.

O aconselhamento nunca diz respeito a um conhecimento neutro, objetivo. Ele é comprometido. Ele sempre “impõe valores”, velada ou abertamente. Ninguém pode evitar isso. As perguntas que você faz (ou deixa de fazer), as emoções que você sente (ou não sente), o que você pensa (ou deixa de pensar), as respostas que você dá (ou não dá), fluem do seu coração. Os terapeutas não são apenas habilidosos ou desajeitados, cuidadosos ou insensíveis; seus conselhos (categorias diagnósticas, esquemas interpretativos, análises etiológicas, ideais de saúde e caráter) são verdadeiros ou falsos, e levam pessoas para o bem ou para o mal. Deus avalia cada palavra proferida de cada boca, pois as palavras registram os pensamentos e as intenções de cada coração, sejam corações contrários ou favoráveis a Ele. O aconselhamento não é uma questão de habilidade técnica neutra e de um papel profissional inerentemente legítimo. O aconselhamento é sábio ou estulto, assim como todos os seres humanos são sábios ou tolos, dignos de confiança ou não, qualquer que seja o seu papel profissional. O aconselhamento guia à verdade ou leva à perdição.

A educação superior e o título profissional não são critérios decisivos no aconselhamento. A sabedoria é o fator decisivo e o verdadeiro centro organizador da sabedoria é o temor de Cristo. Os assim chamados conselheiros na nossa cultura (ou igreja) podem comunicar de maneira deficiente aquilo que diz respeito à vida. Eles podem transmitir ideias enganosas, podem rotular erroneamente a vida e instilar mitos que passam a controlar os corações daqueles a quem aconselham. Mas Deus ainda atua e fala em tempo real, em vidas reais. Sua conversa não é a respeito de como sobreviver melhor. Você precisa escolher entre morrer para si mesmo e viver para Ele, ou viver para si mesmo e morrer. A conversa divina também não é sobre suprir suas necessidades, mas sobre virar de ponta-cabeça o que você pensa que precisa. Ela não diz respeito a identificar causas nas circunstâncias do passado ou nos processos biológicos, mas está interessada no seu coração vis-à-vis com Deus em Cristo. Momento a momento, no seu coração, você, assim como todos nós, adora, ama, deseja, teme, serve, acredita e confia em Deus ou algo mais. A conversa de Deus não é sobre encontrar recursos em você mesmo nem refúgio em outras pessoas ou na psicofarmacologia. É sobre encontrar a Pessoa de Cristos, o único Salvador capaz de livrá-lo daquilo que está realmente errado com você e em seu mundo.

Powlison mostra claramente que as psicologias e as psicologia bíblica atuam no mesmo campo, ambas são “evangelistas” — elas competem entre si.

As psicologias e psicoterapias competem conscientemente com as interpretações e as intenções da fé cristã. Sigmund Freud, por exemplo, concebeu o seu trabalho desta forma: “O termo ‘prática pastoral secular’ pode muito bem servir como uma fórmula geral para descrever a função que o analista…tem de cumprir na sua relação com o público”. Freud via a si mesmo fazendo um “trabalho pastoral, no melhor sentido da palavra”. Mas esse ministério pastoral não oferecia às pessoas a misericórdia e a graça do Senhor pessoal que sonda cada coração e pastoreia as almas. Ao invés disso, quando Freud aconselhava alguém, ele buscava “aperfeiçoá-lo com os recursos internos dele mesmo”. Freud era um grande evangelista de tal confiança nos recursos humanos.

A psicoterapia é uma conversação intencional que acontece “sob a orientação do terapeuta” […] Essas conversas não são neutras em valores. Elas são estruturadas pelo olhar atento e interpretativo e pelas intenções das partes envolvidas. Tanto os “terapeutas” como os “pacientes” (os termos médicos para as partes envolvidas são altamente inadequados, mas ideologicamente úteis) tingem com as suas pressuposições cada palavra proferida, cada assunto escolhido para ser tratado na conversa.

Os psicoterapeutas atuam na qualidade de “sacerdotes seculares”, como os mais conscientes entre eles reconhecem abertamente. Os praticantes das psicoterapias não são “cientistas” que estudam os assuntos com imparcialidade fria nem “médicos” que tratam de psicopatologias nem “técnicos” do conteúdo mental, do estado emocional e dos hábitos comportamentais. Pelo contrário, os profissionais da saúde mental atuam necessariamente como profetas-teólogos, que definem a natureza humana e o significado da vida e colocam Deus de lado. Eles atuam necessariamente como sacerdotes- pastores, que costumam pastorear a alma humana levando-a a encontrar refúgio nela mesma, em outras pessoas e em medicação psicoativa, visto que constroem um universo sem o Deus vivo e Cristo. Atuam necessariamente como anciãos, que dirigem as instituições para a atual cura de almas: clínica, consultório, seguradora, departamento de graduação e pós-graduação, rede de referência, coluna de jornal, livro de autoajuda, programa de entrevistas na TV, registro profissional. Que tipo de atividade estas “autoridades”, “especialistas” e “profissionais” em aconselhamento realmente exercem? O trabalho da igreja.

Recuperar a centralidade de Cristo e da Bíblia na cura de almas requer convicção posta em prática em conteúdo, habilidades e estruturas sociais específicos. A convicção? Jesus Cristo conhece de fato o que está dentro de nós. Todo o ser humano irá se submeter à Sua avaliação final. Sua visão é a verdadeira visão. Esse mesmo Jesus Cristo entregou-se por pessoas obstinadas, confusas e sofredoras. Ninguém e nada mais podem nos livrar do pecado e da miséria da nossa condição. Ele é por nós e está em nós para nos mudar. Sua Palavra, então, diz respeito a entender e ajudar pessoas. Os sofrimentos e as bênçãos, as necessidades e os recursos, as lutas e os pontos fortes de pessoas reais devem ser racionalmente definidos e explicados pelas categorias que a Bíblia usa para nos ensinar a ver a vida humana. Esses problemas devem ser revistos e tratados pelo uso da verdade graciosa e poderosa e dos meios efetivos e amorosos que Jesus nos apresenta e ensina a aplicar. A mente de Cristo olha a vida de modo diferente; as Suas palavras e as Suas obras apontam para uma direção diferente. O escopo dos propósitos explícitos e da suficiência das Escrituras inclui os relacionamentos pessoais que a nossa cultura chama de “aconselhamento” ou “psicoterapia”.

David Powlison. Aconselhamento é a Igreja – CAB  vol. 3

Powlison lembra-nos que o Senhor nos dá generosamente tudo quanto necessitamos para aconselhar bem. Ele nos desafia a trabalhar rumo a um aconselhamento biblicamente sábio, em submissão à doutrina e à vida da igreja local.

O cuidado e a cura das almas – confortar os sofredores e transformar os pecadores – é um componente do ministério integral da Igreja de acordo com a Bíblia. No entanto, talvez estejamos fazendo a obra com deficiência. O Senhor, cuja vontade está revelada na Bíblia, insta-nos à cura das almas. Se o aconselhamento diz respeito de fato à compreensão e solução da condição humana, se ele lida com os problemas reais de pessoas reais, se menciona o nome de Jesus Cristo (ou deveria, mas não o faz), então ele trafega entre a teologia e a cura das almas. O “aconselhamento” deveria expressar e estar sob a autoridade e ortodoxia da Igreja.

Com certeza, as teorias das psicologias modernas sobre a motivação humana não resistiriam dez minutos se fossem examinadas em uma aula de teologia sistemática sobre a natureza humana. Mas o sapato calça no outro pé também. O estado atual de muitas das estruturas da Igreja, do desenvolvimento teórico e da prática ministerial para a cura das almas não resistiriam dez minutos em uma aula de aconselhamento secular sobre como se envolver profundamente e perseverar no cuidado de uma pessoa problemática! Nas páginas da Bíblia temos um modelo de valor (e o mundo secular faria qualquer coisa para ter ao menos algo parecido!): encontramos ali uma união perfeita de pessoas com habilidades especializadas e de recursos da comunidade, uma união perfeita de funções educacionais e de funções corretivas, uma união perfeita de conforto para aqueles que sofrem e de transformação para aqueles cuja vida precisa de mudança. Mas na prática atual da Igreja, com frequência, tanto aqueles que são identificados como especialistas na cura das almas como a comunidade ficam lamentavelmente aquém da compreensão e competência bíblicas.

Creio que orientar a cura das almas em direção ao modelo profissional da saúde mental é fundamentalmente, e até mesmo desastrosamente, errado. Ao mesmo tempo, o compromisso com um ministério de aconselhamento verdadeiramente sábio e orientado pela Igreja está a anos e décadas de apresentar estruturas institucionais significativas. O que precisamos fazer agora? Jesus nos chama a direcionar nossos remos no rumo certo, ainda que o destino pareça bem distante. Tenhamos o propósito certo. Andemos na direção correta. Trabalhemos em direção aos objetivos corretos. Jesus Cristo, nosso Senhor vivo, irá nos aperfeiçoar juntos na maturidade da Sua sabedoria. Efésios 4 nos dá nosso modus operandi, bem como nosso objetivo.