Psicologia e Bíblia: uma possível interação? – Parte 3

Como cristãos, afirmamos crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, nossa “regra de fé e conduta”. Ao nosso redor, porém, crescem as vozes que nos dizem que os problemas profundos da alma e os problemas mais complexos do comportamento humano precisam de “algo mais” para serem entendidos e curados. Bíblia e psicologia excluem-se ou se unem como aliadas no aconselhamento? A questão é atual e ampla. Neste e nos demais posts da série, levantamos as perguntas mais frequentes e reunimos citações extraídas de artigos de David Powlison e Edward Welch que nos levam rumo às respostas. Encorajamos a leitura completa dos artigos, que podem ser encontrados nos volumes de 1 a 8 de Coletâneas de Aconselhamento Bíblico (CAB), revista publicada pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida com conteúdo de Journal of Biblical Counseling, publicado pela Christian Counseling and Educational Foundation.

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•• Quando pensamos em unir a psicologia ao ensino bíblico rumo a um aconselhamento mais eficaz, estamos falando de interação com uma ciência unificada?

David Powlison. Biopsiquiatria – CAB  vol. 2

Powlison mostra como “à medida que as teorias conti­nuaram a proliferar, a possibilidade de uma Grande Teoria Unificada da natureza humana tornou-se apenas lembrança, uma velha ideia impraticável da primeira metade do século vinte”.

Não há esperança de que Freud ou Adler, Maslow ou Skinner, Kohut ou Satir possam estar de fato certos. Ninguém espera que no novo milênio possa aparecer algum gênio com talento para inovação e também para a grande síntese. Ninguém espera que desponte alguém com a verdadeira psicolo­gia. Desta forma, “ecletismo” não é mais uma palavra feia.

Não há uma perspectiva unificada. A pluralidade dissipa qualquer possibilidade do “um”. A pós-modernidade e o multicul­turalismo martelam o prego final no caixão: já que tudo não passa de uma questão de interpretação pessoal sua ou minha, então tudo se reduz a relações de poder. […] A “psicologia”, no singular, está enfrentando um problema fundamental, visto que ninguém nem mais acredita que exista tal coisa. O que resta são “psicologias”.

•• As psicoterapias proporcionam uma metodologia que o cristão pode utilizar para compreender melhor o homem, a causa de seus problemas e a solução?

David Powlison. Crítica aos integracionistas atuais – CAB  vol. 1

Powlison descreve o ambiente do aconselhamento na igreja evangélica contemporânea: o aconselhamento bíblico e o aconselhamento integracionista.

O aconselhamento bíblico alicerça-se na confiança de que Deus falou de modo abrangente sobre o homem e ao homem. Sua Palavra ensina a verdade. O Espírito Santo capacita para o ministério efetivo e amo­roso. Nossa vocação, em sentido positivo, constitui-se em buscar e promover a verdade e os métodos bíblicos no aconselhamento. […] Por esta razão, a possível utilidade da psicologia secular deve ser avaliada com cuidado.

Os conselheiros integracionistas procuram casar a psicologia secular com o cristianismo con­servador porque acreditam que as Escritu­ras não são abrangentes o suficiente. Elas são consideradas como substancialmente deficientes para promover entendimento a respeito dos problemas do homem e pos­sibilitar sua mudança. Para os integracionistas, o pecado não é a questão específica que está na base dos problemas da vida. E as categorias que emergem da exegese cuidadosa das Escrituras não são as categorias significativas para entender e ajudar as pessoas. […] Em sua profissão de fé cristã, todos os integracionistas concordam que o pecado é um fato. Todos professam acreditar na responsabilidade humana. Ao longo do caminho, acidentalmente, alguns fazem comentários que são sábios e perceptivos. (Naturalmente, estas “felizes inconsistências” são mais frequentes em alguns do que em outros). Todos professam crer em Marcos 7.21-23: “ Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem…”, mas a lógica de um sistema psicologizado define esse coração de tal modo que “de dentro de um coração ferido, necessitado, legitimamente cheio de anseios é que procedem…”. Desta forma, a razão final de nossos problemas está logicamente naquelas pessoas que nos prejudicaram, que não supriram nossas necessidades, que deixaram nossos anseios insatisfeitos.

Em seguida, ele nos desafia a interagir adequadamente com as psicologias e psicoterapias.

Qual o papel – se é que há algum – que a psicologia deve ter em nosso modelo de aconselhamento? Ela não deve ter papel em nosso modelo de aconselhamento. Mas as observações seculares podem ter um papel ilustrativo, quando radicalmente reinter­pretadas, fornecendo exemplos e detalhes que ilustram o modelo bíblico e completam nosso conhecimento. Elas podem também ter um papel provocativo, desafiando-nos a desenvolver nosso modelo em áreas sobre as quais não temos pensado ou que esta­mos negligenciando.

Eles [os pesquisadores da área] podem talvez fazer um trabalho empírico de observação que não precisamos repetir, mas que devemos reinterpretar radicalmente de acordo com a verdade bíblica. Esse trabalho reinterpretativo – seja ele feito no escritório de aconselhamento, a sós ou durante a leitura – é uma extensão lógica do ato de perceber as antíteses entre a verdade bíblica e as teorias seculares.

As Escrituras nos dão tanto as lentes (categorias interpretativas verdadeiras) como um amplo número de exemplos concretos para o aconselhamento. Mas a Bíblia em nenhum momento pretende fornecer todos os exemplos. Deus quer que nos apropriemos de nossas lentes e nos dediquemos ao trabalho de pensar correta e biblicamente a respeito das pessoas. Por exemplo, pondere as implicações de Gálatas 5.19-21. Paulo lista 15 exemplos representativos das obras que a carne quer produzir. Ele insere esta lista entre dois comentários que nos lembram que devemos usar nossas lentes bíblicas, olhar ao redor e reparar em outros 115 (ou 1015!) exemplos: “Ora, as obras da carne são conhecidas e são… e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro”. Considere 1 Timóteo 6.10: quais as formas específicas e incontáveis de pecado que o amor ao dinheiro produz? Considere Tiago 3.16: quais são as variações incontáveis de caos e pecado que surgem quando as pessoas estão absorvidas em si, mergulhadas em orgulho e exigências pessoais? A suficiência das Escrituras nos desafia a pensar a fundo e a observar de perto tanto os indivíduos como a cultura.

A suficiência da Bíblia não nos permite descansar na mentalidade de “enciclopédia” ou “concordância”. Tenho encontrado conselheiros bíblicos que agem como se um problema não mencionado na Bíblia não fosse de fato um problema. Eles falham no apreciar o âmbito da suficiência bíblica. Eles falham em perceber que tais problemas estão listados implicitamente – dentro de “coisas semelhantes a estas” e “toda obra do mal”. Eles falham no trabalho de pensar arduamente para demonstrar como os temas comuns da verdade bíblica estão na raiz da complexidade idiossincrática do pecado humano, da tristeza, do caos e da confusão.

Tenho encontrado várias pessoas que no passado foram “conselheiros bíblicos”, mas ficaram desiludidas e se voltaram para o integracionismo e para as “riquezas” da psicologia secular. São pessoas cuja epistemologia contém erros graves. A sua epistemologia de “conjunto de fatos” faz a Bíblia prometer mais do que promete (ser uma enciclopédia exaustiva) e também prometer menos do que promete (ser apenas uma enciclopédia exaustiva!). Quando seu entendimento da Bíblia se mostra insuficiente diante do pecado e do sofrimento humano, a psicologia penetra na brecha, e a abundância de fatos que ela oferece faz com que teorias e técnicas seculares – semelhantes a lentes distorcidas ou a uma “casa dos espelhos” – pareçam maravilhosamente persuasivas. Devemos lembrar que a maioria dos integracionistas eram anteriormente cristãos bíblicos conservadores. Durante os anos de estudo superior, diante de problemas pessoais ou deparando-se com os problemas dos aconselhados, a Bíblia tornou-se repentinamente insuficiente, e rendeu-se diante de uma “sabedoria” secular aparentemente melhor. Essa mesma dinâmica continuará a acontecer entre conselheiros bíblicos a menos que definamos precisamente o significado da suficiência das Escrituras. A Bíblia é um conjunto de fatos ou é a lente da verdade – incluindo inúmeros fatos ilustrativos – pela qual Deus corrige nossa visão tingida pelo pecado? A habilidade dos conselheiros bíblicos para lidar sabiamente com seu pecado, aconselhar sabiamente e defender sua posição com firmeza depende desta resposta.

David Powlison. A suficiência das Escrituras para diagnosticar e curar as almas – CAB  vol. 5

Powlison dá testemunho da convicção de que as Escrituras tratam dos “problemas da vida” e devem ser o conteúdo de um aconselhamento bíblico.

Na realidade, possuímos os recursos para uma teologia prática coerente e abrangente do ministério pessoal. As Escrituras estão carregadas de explicações, instruções e implicações. […] Em vários lugares, o Espírito Santo recai na suficiência do tesouro que Ele criou por meio de Seus profetas e apóstolos. Por exemplo, em uma passagem clássica, as Escrituras declaram ser o instrumento para nos tornar “sábios para a salvação”. Essa é uma descrição abrangente da transformação pela qual passamos (2Tm 3.15-17). Essa mesma passagem fala também das palavras do Espírito como tendo o propósito de nos ensinar. A absoluta simplicidade e a complexidade insondável das Escrituras nos iluminam acerca de Deus, de nós mesmo, do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, da graça e do juízo, do mundo que nos cerca com suas inúmeras formas de sofrimento e engano, e das oportunidades para derramar luz sobre as trevas. Por meio desse ensinamento, atrelado a pessoas específicas, em situações específicas, Deus expõe em detalhes específicos o que há de errado com a vida humana. Nenhuma análise mais profunda, mais verdadeira ou superior acerca da condição humana pode ser concebida.

Os ensinamentos bíblicos falam acerca de uma gama de tópicos. Um assunto crucial é a área da motivação humana – a interpretação e a avaliação dos nossos desejos. A perspectiva bíblica do que está transtornado na motivação humana desafia contundentemente todas as propostas seculares no que diz respeito a explicar com sabedoria por que fazemos o que fazemos.

Muitos sistemas de aconselhamento estão obcecados com rastrear no passado distante as causas para os problemas atuais. A cosmovisão bíblica é muito mais direta. O pecado nasce no interior da pessoa. O fato de que um estilo de desejos habituais tenha sido estabelecido há muitos anos – mesmo que tenha sido moldado em um contexto particular, quem sabe influenciado por modelos ruins ou por experiências nas quais foi vítima do pecado de outros – apenas descreve o que aconteceu e quando. O passado não explica o porquê. Por exemplo, as rejeições do passado não geram o desejo de ser aceito pelos outros mais do que as rejeições do presente o fazem. Alguém que foi sempre aceito por pessoas importantes em sua vida pode ser igualmente controlado pela cobiça por aceitação. As situações jamais são a causa da cobiça. As tentações e os sofrimentos de fato apertam o botão, mas não criam os botões. Isso nos traz muita esperança por mudança no presente, pela graça de Deus.

É possível mudar aquilo que você mais deseja? Sim. A resposta a esta pergunta o surpreende? Ela contraria os pontos de vista de maior influência na visão contemporânea da motivação humana. A maioria dos livros de aconselhamento cristão segue os passos dos psicólogos seculares e considera nossos desejos, as “necessidades sentidas”, como fixos. Muitos psicólogos cristãos de renome fazem da imutabilidade daquilo que desejamos o fundamento de seus sistemas. Por exemplo, muitos ensinam que temos um “tanque de amor vazio” dentro de nós. Nosso anseio por amor precisa ser satisfeito ou estamos fadados a uma vida de tristeza e pecado. O desejo de nos sentirmos bem acerca de nós mesmos (a “autoestima”) ou o desejo de realizar algo de significado recebem o mesmo rótulo.

O poder da graça que opera dentro de nós muda, de forma qualitativa, exatamente os desejos que os psicólogos dizem ser natos, imutáveis e moralmente neutros. A graça de Cristo destrói e substitui (em uma batalha que dura pela vida inteira) os mesmos desejos que as teorias explicam, de forma variada, como “necessidades”, “impulsos”, “instintos” ou “alvos”. […] Podemos ser reconfigurados em nossa essência pela presença misericordiosa do Messias. Nenhum dos psicólogos seculares diz ou é capaz de dizer isso. Eles não têm capacidade para se dirigirem a nós com tanta profundidade nem querem chegar a tratar do âmago daquilo para que nós (e eles) vivemos. Isso significaria ter de confessar a Cristo.

Os conselheiros sábios não “apenas confrontam”. Eles fazem inúmeras coisas diferentes para que a confrontação seja oportuna e eficiente. Os conselheiros não enxergam o coração. Eles veem apenas as evidências, de modo que existe um certo grau apropriado de tentativa quando se fala em motivações. Talvez seja mais apropriado dizer que o aconselhamento procura iluminar o coração. Queremos ajudar as pessoas para que vejam a si mesmas como Deus as vê e, desta forma, tornar o amor de Deus algo extremamente desejável. Uma vez que nós conselheiros possuímos o mesmo pacote de cobiças típicas, necessitamos igualmente da graça por causa de orgulho, temor a homens, incredulidade e amor por conforto e controle. Podemos e devemos atacar tais questões. 2 Timóteo 3.16 começa com “ensinar”. O bom ensino (por exemplo, mostrando como Gálatas 5 e Tiago 1 estabelecem uma ligação entre os pecados externos e os desejos internos) ajuda as pessoas a examinarem e enxergarem a si mesmas. O bom ensino convida ao autoconhecimento e à autoconfrontação. A experiência no lidar com pessoas confere sabedoria para estabelecer associações comuns (por exemplo, os diferentes motivos para a imoralidade mencionados na pergunta 6). Perguntas profundas (“O que você quer/espera/teme quando explode com sua esposa?”) ajudam a pessoa a revelar para si mesma e diante do conselheiro a cobiça que a controla.

À luz do autoconhecimento perante a face de Deus (Hb 4.12-13), o evangelho oferece muitas promessas: misericórdia, ajuda, o cuidado do Pastor na santificação progressiva (Hb 4.14-16). “A revelação das Tuas palavras esclarece” (Sl. 119:130). Arrependimento, fé e obediência ganham vigor baseados em compreensão quando enxergamos à luz das misericórdias de Deus tanto os desejos do coração como os pecados manifestos. Trabalhe árdua e cuidadosamente nas questões de motivação (Romanos 13.14: os desejos da carne versus revestir-se de Jesus Cristo) e nas questões comportamentais (Romanos 13.12-13: as diferentes obras das trevas versus o comportamento adequado da luz). Os desejos do Senhor nos conduzem a algo muito bom: as boas obras. Um ingrediente chave na reivindicação da cura da alma é fazer dessa transformação algo central.