Alcançando o coração de quem sofreu um abuso sexual

Pamela Gannon

Em nosso livro, In the Aftermath, Past the Pain of Childhood Sexual Abuse , Bev Moore e eu nos esforçamos para levar esperança a quem sofreu um abuso, enfatizando o coração amoroso de Deus, e Seu desejo e poder de redimir a pessoa que foi ferida pelo pecado de quem cometeu o abuso. No meu ministério, interajo frequentemente com outros conselheiros e conselheiras que nunca passaram por uma experiência de abuso.

Muitos deles também querem ajudar essas mulheres que estão sofrendo, mas eles se sentem despreparados para entender a gravidade dos problemas comumente enfrentados por alguém que sofreu um abuso. A variedade de comportamentos confusos que percebem durante o aconselhamento pode intimidá-los, e eles se sentem frequentemente inseguros com respeito a qual seria a maneira mais sábia de levar aquela pessoa à verdade bíblica.

Aconselhar nosso próprio coração biblicamente faz com que estejamos melhor preparados para ajudar os outros. No entanto, para podermos levar aos outros de maneira mais eficaz a esperança do nosso precioso Senhor, ao lado de uma exegese da Bíblica, precisamos também fazer uma “exegese” – ou seja, uma interpretação – do mundo da pessoa que estamos aconselhando. Embora cada pessoa e situação de aconselhamento seja única, podemos identificar nas pessoas que foram abusadas sexualmente uma tendência comum de apresentar certos tipos de luta: medo, vergonha, sentimento de culpa, raiva, desespero, desamparo, problemas nos relacionamentos, má compreensão do que sejam a confiança e o amor, e confusão a respeito do sexo.

Este artigo tem por propósito dar insights para ajudar os conselheiros na exegese de pessoas que sofreram um abuso sexual. Abaixo estão alguns pontos que eu acredito que a maioria das mulheres que passaram por um abuso gostaria que seus conselheiros levassem em consideração.

Eu estou… amedrontada.
— Estou com medo de você. Eu quero me proteger.
— Tenho medo de ser ferida novamente. Antes de lhe contar qualquer coisa, quero saber se você é uma pessoa confiável, que não irá me destruir completamente.
— Tenho medo de todos. Estou atemorizada. Eu aprendi como manter as pessoas afastadas de mim.
— Tenho medo de autoridades, de pessoas que me controlem. Tive uma péssima experiência.
— Tenho medo de barulho ou movimento repentino. Eu nunca tenho certeza de que estou segura, por isso fico sempre em alerta, hipervigilante, e não consigo relaxar.
— Tenho medo de dormir. Eu tenho pesadelos terríveis. E quando estou cansada, meu cérebro não funciona bem.

Eu estou… confusa.
— Estou confusa sobre a razão de eu sentir tanto medo.
— Estou confusa sobre a razão de Deus permitir as “coisas ruins”.
— Estou confusa sobre por que eu faço o que faço, e por que eu me sinto tão diferente dos outros.
— Estou confusa sobre como me relacionar com as pessoas. Sinto-me estranha, diferente. Eu não me encaixo.
— Estou confusa sobre o amor. Você quer receber alguma coisa de mim, então você é legal comigo para conseguir aquilo que quer. Isso é o amor?
— Estou confusa sobre culpa e inocência; minha consciência não está bem treinada.

 Estou… envergonhada.
Sinto vergonha porque acredito que sou culpada pelo abuso.
Tenho vergonha de falar sobre o que aconteceu. Eu nunca contei para ninguém o que aconteceu. Eu quero fingir que nunca aconteceu. Eu quero entorpecer as memórias de alguma maneira que funcione.

Sinto vergonha porque não aprendi a lidar com aspectos básicos da vida pessoal e relacional enquanto eu estava ocupada demais na tentativa de sobreviver ao abuso. 
As atividades e habilidades que são óbvias para a maioria das pessoas não são óbvias para mim.

Por eu estar amedrontada, confusa e envergonhada, eu posso …
Fazer inúmeras tentativas de como escapar dos pensamentos “terríveis”.
Não fique chocado com o que eu digo ou faço para lidar com meu passado. Eu quero que você entenda a dor que há por trás dos meus métodos de fuga pecaminosos. Eu sei que é errado fazer o que faço, mas eu me justifico dizendo que isso alivia minha dor.

Ver a mim mesma como alguém que merece ser ainda abusada. 
Não tenho poder para dizer “não” a quem deseja o meu corpo. A familiaridade traz segurança. Se eu continuar a entregar meu corpo, talvez eu fique entorpecida e deixe de pensar sobre o que aconteceu no passado.

Testar para ver se você não desistirá mesmo de mim. 
O teste pode ser uma expressão de ira que você não esperava, ou um retraimento  que pega você de surpresa. Por favor, persevere. Levarei algum tempo para ver por que esses testes são errados e como eles são destrutivos para os relacionamentos. Eu me acostumei a justificá-los dizendo que eles acontecem por causa da minha dor e do medo.

Sentir-me condenada quando você me corrige. 
Mesmo que a correção seja feita com mansidão, será difícil até eu entender que ela é feita por amor. Eu me sentirei condenada porque já estou tomada de vergonha. Por favor, continue a me corrigir sempre com mansidão; não desista, mas persevere porque preciso aprender o que é certo.

Ficar me perguntando por que você se importa comigo.

Para me ajudar de verdade, por favor…
Acredite em mim quando eu finalmente contar o que aconteceu (1Co 13.7).
Eu já fiz tentativas de contar a outras pessoas e elas não me levaram a sério.
(Observação: acredite, a menos que haja boas evidências em contrário).

Mostre-me o amor de Deus. É provável que eu nunca o tenha vivenciado (1Co 13;  1Jo 4.7-21;  Ef 5.2).
Ensine sobre Deus; seja seu embaixador de Deus para mim (2Co 5.20 Jo 14.6).
Acho difícil acreditar que Deus me ama. Isso não faz sentido para mim. Não sei o que pensar sobre Deus. Mostre-me como falar com Ele. Eu posso ainda não saber como fazer isso, mas Ele é minha única esperança!
(Observação: use os Salmos.)

Fale-me sobre a verdade de que Deus é poderoso o suficiente para me ajudar a ter vitória em todas essas coisas (2Pe 1.3, 4).
Quero ter a certeza de que todas as coisas são possíveis para Ele (Mt 19.26), que Ele é capaz de fazer infinitamente além de tudo que posso pedir ou pensar (Ef 3.20)!

Seja alguém que me protege (Gl 6.1, 2).
Fique do meu lado, especialmente quando tiver de fazer aquelas coisas difíceis que você me pede para fazer.

Seja paciente – extremamente paciente – e bondoso (1Ts 5.14Rm 2.4).
Saiba que eu quero mudar, mas isso é assustador e doloroso.

Coisas que serão úteis eu ouvir.
Eu sinto muito que você tenha passado por isso.
Eu vou caminhar ao seu lado.
Eu quero ser útil para você, esse é o meu propósito.
Quero oferecer a você o melhor tipo de ajuda que existe – a ajuda que vem de Deus.

Eu não quero aumentar desnecessariamente sua dor.
Não vou forçá-la a me contar detalhes além do que você já se sente à vontade de me contar neste momento.

Não é errado sentir ira contra o abuso.
A ira pode motivar a uma ação correta.

Deus a ama. Ele é se posiciona a seu favor, não contra você (Rm 8).
Você pode correr para ele. Ele se importa profundamente com o que aconteceu. Ele é um Deus de justiça, e todas as coisas serão corrigidas no devido tempo (Rm 12.192Ts 1.6-9).

Deus é o Deus de todo consolo (2Co 1.3, 4) e o Deus da esperança (Rm 15.13)!

Perguntas para reflexão
O que Deus tem proporcionado para você crescer em sua capacidade de fazer uma “exegese” das pessoas que você aconselha para poder comunicar a verdade bíblica de maneira mais eficaz?
Como você pode crescer na habilidade de mostrar o amor de Cristo às pessoas que sofreram um abuso?

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Original: Inside the Heart of a CSA Survivor
Publicado em Biblical Counseling Coalition
Pamela Gannon é formada em enfermagem e mestre em aconselhamento bíblico. É professora adjunta de aconselhamento bíblico na Montana Bible College e palestrante na ACBC sobre questões médicas, ao lado de seu marido, Dan Gannon. Ela é co-autora de  In the Aftermath, Past the Pain of Childhood Sexual Abuse.