O que eu esperava?

Beverly Moore

Acredito ser alguém bastante normal no que diz respeito à paciência. Não sou uma pessoa que se deixa dominar rapidamente pela impaciência, mas me dei conta de que, às vezes, não sou tão paciente e perseverante como o Senhor quer que eu seja nos aconselhamentos.

Recentemente, conversando durante o almoço com alguns colegas conselheiros, eu disse que meu único desejo seria que meus aconselhados “entendessem” que devem simplesmente viver para agradar a Deus. Isso tornaria a vida muito mais simples para eles – e para mim também. Em teoria, é isso que eu quis dizer. Há uma grande alegria em viver de maneira agradável a Deus.

Recebo aconselhados que vêm prontos para descobrir a verdade da Palavra de Deus e estão ansiosos para colocá-la em prática. É quase possível ouvir os anjos cantando! Outras vezes, porém, encontro aconselhados que percorrem inúmeras vezes o mesmo caminho, levantando as mesmas dificuldades e lutando contra os mesmos problemas, sendo preciso voltar às mesmas verdades das Escrituras pelas quais já havíamos passado outras vezes. Meus aconselhados haviam acenado concordar com o ensino bíblico, disseram ter entendido, e ainda assim precisamos revisitar as mesmas coisas, e revisitá-las muitas vezes.

A culpa será minha? Não estou dizendo o que eu deveria dizer, não estou manejando corretamente as verdades das Escrituras? Será que não fiz perguntas suficientes para entender o cerne da questão nas lutas daquele aconselhado? Errei em presumir que meu aconselhado compreendera a Palavra de Deus e desejava realmente colocá-la em prática?

Por que isso tem de ser tão complicado?
O aconselhamento é complicado porque as pessoas e a vida são complicadas. O pecado complica a vida. O sofrimento complica a vida. Os relacionamentos quebrados complicam a vida. A falta de conhecimento e a falta de compreensão das verdades bíblicas complica a vida. Participar de uma igreja que não ensina as Escrituras, ou viver isolado de outros crentes, complica a vida. Deixar de ler a Bíblia, colocá-la em prática e viver para glorificar a Deus também complica a vida. Uma má compreensão do sofrimento complica a vida, uma vez que vivemos em um mundo caído. As coisas não nos parecem simples porque elas não são tão simples como gostaríamos que fossem. Os casos de aconselhamento difíceis mostram-me que preciso parar e considerar quais são as minhas expectativas.

O que devo esperar quanto à vida e ao aconselhamento? Aqui estão algumas verdades que preciso lembrar para alinhar minhas expectativas com a Palavra de Deus.

Devo esperar que haja problemas.
Jesus disse em João 16.33: “Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições”. Parece que sou eu a única pessoa pega de surpresa quando acontece um problema em minha vida. Posso ouvir a mim mesma dizendo: “Pai, o Senhor viu o que está acontecendo?”. E, ainda mais, achando que a resposta de Deus seria: “Uau, Bev, EU nem percebi que isso aconteceu!”. Uma coisa é certa: Ele não está nem um pouco surpreso porque Ele é o único que detém o controle soberano de todas as coisas. Somente Ele sabe o que precisa acontecer em minha vida para me tornar mais parecida com Seu Filho.

Devo esperar que Deus me discipline … e que o processo seja dolorido.
O escritor da Carta aos Hebreus disse: “Suportem as dificuldades, recebendo-as como disciplina; Deus os trata como filhos. […] Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade. Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados” (Hb 12.7, 10, 11). Deus está trabalhando no processo de me tornar parecida com Seu Filho, e Ele está aparando tudo aquilo que não me faz ser como Jesus. A lapidação é dolorida e, às vezes, Ele usa meus aconselhados para fazer isso.

Devo esperar que os problemas produzam benefícios.
O apóstolo Paulo diz em 2Coríntios 4.17: “Os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles”. Quando surgem problemas na minha vida, preciso cultivar uma perspectiva eterna e ajudar meus aconselhados a fazer o mesmo. Devemos considerar os problemas motivo de alegria por causa dos benefícios que eles produzem (Tiago 1. 2-4).

Devo esperar que venham dificuldades, que só podem ser enfrentadas com a ajuda de Deus.
Jesus disse em João 15.5: “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma”. De quem ou do que eu realmente dependo para lidar com os problemas e solucioná-los? Seria orgulho da minha parte pensar que posso resolvê-los com minhas próprias forças e minha compreensão limitada. Preciso da sabedoria de Deus.

Devo esperar pelo consolo de Deus em meio aos meus problemas … para que então eu possa consolar outras pessoas.
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para que, com a consolação que recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações” (2Coríntios 1.3-4). Eu não posso dar aos meus aconselhados algo que não tenho. A minha confiança deve estar no Senhor e em Sua sabedoria, Seu amor e força, no fato de que Ele fará com que meus problemas e os problemas dos meus aconselhados cooperem para o bem, e Ele será glorificado através dos nossos problemas!

Creio que a razão pela qual Deus me faz passar por problemas, dificuldades e disciplina é revelar-me o que eu realmente espero e aquilo de que eu realmente dependo. Em quais altares falsos eu adoro? Essencialmente, nos altares da comodidade, facilidade e cooperação. Eu gostaria que a vida em geral e que os aconselhamentos fossem mais claros e simples, menos complicados. Eu só queria que todos nós “entendêssemos”.

No entanto, meus aconselhados podem ser novos convertidos ou pessoas relativamente novas na fé. Levará tempo até que eles cresçam. Outros podem ser seguidores de Cristo já há algum tempo, mas talvez não tenham entendido como a Palavra de Deus realmente se conecta com a vida cotidiana, ou como podem renovar seus pensamentos. É possível que tenhamos de examinar várias vezes as Escrituras para que os aconselhados as compreendam realmente.

Pedirei, portanto, que o Senhor que me dê sabedoria para apresentar Suas verdades e princípios de maneira que faça sentido para meus aconselhados. Orarei ao Senhor, pedindo que meus aconselhados tenham olhos para ver e ouvidos para ouvir de forma que se deem conta de como o evangelho, as boas novas de Jesus Cristo ressuscitado dentre os mortos, faz diferença em sua vida enquanto eles vivem para O agradar. Orarei pela abundante graça de Deus para nos ajudar a viver para a Sua glória. Precisamos da ajuda do Espírito Santo, o verdadeiro e melhor Conselheiro!

Essa foi uma lição importante para mim. Quero seguir as instruções que o apóstolo Paulo deu em 1Tessalonicenses 5.14: “Exortamos vocês, irmãos, a que advirtam os ociosos, confortem os desanimados, auxiliem os fracos, sejam pacientes para com todos”.  Eu preciso “entender” isso.


Original: What Did I Expect?
Publicado em Counseling with Confidence and Compassion
Beverly Moore é faz parte da equipe de aconselhamento bíblico da Faith Biblical Counseling Ministry (Lafayette, IN), e é coautora de In the aftermath: past the pain of childhood sexual abuse.